Investimentos de US$ 200 bi exigem captações das empresas
São Paulo - 27 de Junho de 2008
A cada dia empresas brasileiras anunciam planos de investimentos mais audaciosos. Só a Petrobras, a Vale e o setor siderúrgico já informaram ao mercado financeiro que vão gastar mais de US$ 200 bilhões ao longo dos próximos 10 anos para ampliar a produção e, com isso, conseguir atender ao forte crescimento da demanda.
Para financiar esses orçamentos polpudos, as companhias terão de ampliar suas captações por aqui e no exterior, o que pode trazer impactos inclusive para o balanço de pagamentos do País. A cifra de US$ 200 bilhões é considerada para lá de conservadora pelos analistas, principalmente levando em conta as recentes descobertas da Petrobras de reservas gigantes de petróleo e gás na camada pré-sal. Além disso, destacam os sinais de que a Vale se prepara para a compra de um ativo de peso no exterior. No alvo da mineradora estariam empresas com valor de mercado entre US$ 45 bilhões e US$ 100 bilhões. Os recursos iriam se somar aos US$ 59 bilhões do programa de investimentos da mineradora anunciados até 2012. O caso da Petrobras é até mais emblemático. O orçamento atual da companhia prevê investimentos de US$ 112 bilhões até 2012. Mas, esse número será revisado em setembro, quando a estatal divulga seu novo programa de investimento que irá valer até 2013. Com a descoberta das reservas gigantes de petróleo e gás na camada pré-sal, das quais as mais promissoras estão na Bacia de Santos, a expectativa de fontes na área técnica da empresa é de que os investimentos tenham que triplicar para dar conta dos novos projetos. O diretor Financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, revela que a estatal considera elevar o endividamento dos atuais 20% do patrimônio líquido para um patamar em torno de 35%. "Existe espaço para se endividar. O percentual de 35% é considerado uma faixa ótima para os planos da companhia", afirmou. Pelo balanço do primeiro trimestre, o endividamento líquido da companhia soma R$ 32 bilhões e seria de R$ 42 bilhões caso a nova estratégia já estivesse implementada. Com esse novo patamar de investimentos das companhias brasileiras, o diretor de Mercado de Capitais do BNDES, Eduardo Rath Fingerl, está certo que haverá um endividamento maior. Além das captações, o executivo acredita que as empresas tendem a buscar um reforço de caixa também por meio de ofertas de ações. "As companhias vão buscar cada vez mais fontes alternativas de captação de recursos", afirmou. Desde o início do ano, a Vale vem seguindo à risca essa cartilha. Em abril, a mineradora obteve do BNDES a maior linha de financiamento já oferecida pelo banco, no valor de R$ 7,3 bilhões. Quase três meses depois, a mineradora anunciou a intenção de captar até US$ 15 bilhões por meio de uma oferta de ações, a maior já realizada no Brasil. No comunicado enviado ao mercado, a mineradora informou que os recursos têm como objetivo financiar parte do plano de investimentos e bancar "eventuais aquisições". Mas, não são apenas companhias ligadas ao setor de commodities que têm planos ousados de expansão. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) calcula que as empresas do setor vão gastar cerca de R$ 250 bilhões nos próximos 10 anos para expandir seus negócios. O presidente da Petros, segundo maior fundo de pensão do País, Wagner Pinheiro, também vê um cenário favorável para uma ampliação do endividamento das empresas nacionais. "O nível de formação de capital cresceu no Brasil, o que é fundamental para que se tenha crescimento sem inflação de demanda no País. Acho que vamos ver mais captações no médio prazo", disse. Nas últimas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já é possível mensurar esse maior interesse das empresas brasileiras em ampliar seus negócios. Depois de patinar na casa dos 16% ao ano entre 2001 e 2007, a taxa de investimento no primeiro trimestre do ano atingiu o percentual de 18,3% do Produto Interno Bruto. E os planos do governo para incentivar o setor industrial projetam uma taxa de investimento na casa dos 21% para 2010. "O Brasil está crescendo, as empresas vão investir mais. Uma parte desses recursos deve vir da poupança externa", previu Barbassa. A Petrobras já está de olho no mercado de capitais internacional, tanto que os planos para este ano incluem a captação de US$ 5 bilhões. Os recursos têm como destino investimentos na área da camada pré-sal, na bacia de Santos. O ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria, Gustavo Loyola, destaca que as empresas brasileiras são menos endividadas do que a média das estrangeiras. Ele lembra que no passado, as empresas preocupadas com as incertezas na economia nacional preferiam utilizar a geração de caixa para financiar seus programas de expansão. Hoje, o cenário é diferente e, muitas companhias estão buscando outras formas mais baratas de bancar seus investimentos. "A atual magnitude dos investimentos vai exigir que as companhias busquem sócios ou se endividem mais", previu.